quarta-feira, 19 de junho de 2019

Aula 09 - Desvendando o Apocalipse: "O Selo de Deus" II


Contudo, o firme fundamento de Deus permanece inabalável e autenticado com esse selo: “O Senhor conhece os seus” e “Aparta-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor”. ( 2 Tm 2:19)

Introdução

O assunto é tão importante que Deus abriu um parêntese antes de falar sobre o sétimo selo para mostrar a João que, antes da volta de Jesus, existirá um povo especial responsável por realizar uma obra profética mundial. O capítulo sete apresenta informações adicionais particulares concernentes ao sexto selo. João visualiza essa cena antes de o céu retirar-se como um livro que se enrola, e depois dos sinais no Sol, na Lua e nas estrelas. Isso ocorre entre os versos 13 e 14 de Apocalipse 6.

Ap 7:1 - “Depois desses eventos, observei quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, com a missão de reter os quatro ventos da terra e evitar que qualquer massa de ar fosse soprada sobre a terra, o mar ou sobre qualquer árvore.”

Os quatro cantos da Terra denotam os quatro pontos cardeais: Norte, Sul, Leste e Oeste. Isso significa que esses anjos têm toda a Terra para cuidar.

Os anjos são agentes sempre presentes nos negócios da Terra. Aqui fica claro que Deus lhes confiou uma poderosa obra: reter os quatro ventos da Terra. Isso é uma profecia a cumprir-se imediatamente antes da segunda vinda de Cristo.

Na Bíblia, ventos significam comoção política, agitação, guerras (Dn 7:2,3,16,17; Is 17:12-14; Jr 49:35-37).

Não fosse pelos quatro anjos segurando os ventos, a civilização se auto-destruiria. Os anjos do mal estão agitando os ventos das guerras. Os acontecimentos internacionais falam em voz alta de que se aproxima o momento decisivo em que os ventos serão soltos, e se estabelecerá o caos total. Simultaneamente, ao serem soltos os ventos, virão as sete últimas pragas preditas no capítulo 16.

Mas a obra dos anjos de segurar os ventos tornará possível a realização de outra obra muito especial, que será descrita nos versos seguintes. O tempo da graça divina por um mundo caído e ingrato terá se esgotado para sempre. Multidões que estão recebendo e rejeitando o convite da misericórdia estarão excluídas da salvação que desprezam. Agora, porém, é o tempo da decisão.

Ap 7:2-3 - “Então, vi um outro anjo subindo do Oriente, tendo o selo do Deus vivo. Ele bradou com voz grave aos quatro anjos a quem havia sido concedido poder para produzir destruição na terra e no mar: “Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores, até que selemos a testa dos servos do nosso Deus!”

A Bíblia usa as palavras “sinal” e “selo” de maneira intercalada. Em Gn 17:11, é dito que a circuncisão era um “sinal”. Em Rm 4:11, ela é mencionada como sendo um “selo”. O selo é uma marca distinta que torna o povo de Deus diferente, nesse caso, a marca do povo judeu.

Na bíblia, encontramos vários versículos sobre:

· SELO: Ex 28:36; Jo 6:27; 2 Co 1:22; 1 Tm 2:19.

· SINAL: Gn 4:15; 9:12-13,17; Ex 12:13; Dt 6:8; Is 11:10; Fp 1:27-30; Ap 20:4.

O anjo é tão-somente o portador do selo. Mas o Selador deve ser Aquele que é o único capaz de convencer os homens a aceitar o selo de Deus. O Espírito Santo é quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo. Em outras palavras, Ele convence o mundo sobre a transgressão da lei, porque, segundo o apóstolo João, pecado também é a transgressão da lei.

Ap 7:4-8 - “Então me foi revelado o número dos que foram selados: “cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos de Israel. Da tribo de Judá, foram selados doze mil, da tribo de Rúben; doze mil, da tribo de Gade; doze mil, da tribo de Aser; doze mil, da tribo de Naftali; doze mil, da tribo de Manassés; doze mil, da tribo de Simeão; doze mil, da tribo de Levi; doze mil, da tribo de Issacar; doze mil, da tribo de Zebulom; doze mil, da tribo de José; doze mil, da tribo de Benjamim; doze mil”...e a enorme multidão de cristãos”.

Quem são os 144 mil?

· Existe uma linha teológica que diz que este número diz respeito a quantidade de judeus que se converterão a Jesus nos últimos dias. Porém, é sabido que hoje, já existem 1 milhão de judeus messiânicos, ou seja, que crêem e professam que Jesus é o Messias.

· Outra linha teológica acredita que este número não é literal, mas simbólico e que mostra que nos últimos dias Israel se converterá a Jesus.

· Mas outra linha teológica, e essa é que eu acho mais convincente, fala que é um número simbólico, não literal, da plenitude de Israel, ou seja, da restauração espiritual deste povo em Deus que resultará na sua salvação (Is 49:3; 61:3; 66:5-18; Ez 20:41; 36:23; 39:27; At 1:6-7; 321; 2 Ts 1:10)

Ap 7:9-10 – “Em seguida, olhei, e diante de mim descortinava-se uma grande multidão tão vasta que ninguém podia contar, formada por pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam em pé, diante do trono do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas, empunhando folhas de palmeira. E proclamavam com grande voz: “A Salvação pertence ao nosso Deus, que se assenta no trono e ao Cordeiro!”

O profeta contempla os santos salvos, “de todas as nações, e tribos, e povos e línguas”, trajando uma vestimenta única – as vestes brancas simbólicas da justiça do Salvador e ostentarão palmas em suas mãos como emblemas da grande salvação alcançada sob o poder de Jesus.

O termo ‘ramos’ é tradução de várias palavras hebraicas e gregas que significam: rebento, renovo, broto, galho, ramo, palma, etc. É interessante que muitas vezes, estes termos são empregados pelos profetas do Antigo Testamento para indicar o Cristo que havia de vir:

o Isaías: “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo” (Is 11:1);

o Jeremias: “Naqueles dias e naquele tempo, farei brotar a Davi um Renovo de justiça” (Jr 33:15);

o Zacarias: “Eis aqui o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do SENHOR” (Zc 6:12).

Apocalipse 7:11-17 – “Todos os anjos que se encontravam em pé ao redor do trono dos anciãos e dos quatro seres viventes prostraram-se diante do trono com o rosto em terra e adoraram a Deus, exclamando: “Amém! Louvor e glória, sabedoria, ação de graças, sejam ao nosso Deus para todo o sempre. Amém!” Então um dos anciãos me indagou: “Quem são e de onde vieram todos estes que estão vestidos com túnicas brancas?” E eu lhe respondi: “Ó meu Senhor, tu o sabes”. Então ele afirmou: “Estes são os que vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro. Por esse motivo, eles estão perante o trono de Deus e o servem dia e noite em seu santuário; e Aquele que está assentado no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Nunca mais passarão fome, jamais terão sede. Não os afligirá o sol, nem tampouco qualquer mormaço, pois, o Cordeiro que está no centro do trono será o seu Pastor; Ele os conduzirá às fontes das águas da vida, e Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima”.

Essa multidão incontável é composta dos que “vieram da grande tribulação”.

Todos os cristãos passam por tribulações para entrar no reino de Deus (At 14:22). A Bíblia fala sobre o tempo de angústia “qual nunca houve, desde que houve nação” (Dn 12:1).

Nem fome, nem sede. Isso mostra que eles passaram fome e sede.

Nas sete últimas pragas, os pastos, com todos os frutos e a vegetação, ficam secos (Jl 1:18-20), e os rios e fontes tornam-se em sangue (Ap 16:4-7). Nesse tempo, as escrituras afirmam que o justo receberá pão e água e se refugiará no Senhor (Is 33:15-16).

Nas pragas, o Sol recebe poder para “abrasar os homens com fogo” (Ap 16:8, 9), mas os justos serão protegidos dos efeitos mortais.

Deus tem muitos filhos espalhados ao redor do mundo. São encontrados em todas as igrejas e até mesmo fora das igrejas. A mensagem de Cristo alcançará todas as terras, e reunirá aqueles cujo coração estará unido ao do Pai.

Aqueles que estão diante do trono: anjos, seres viventes e anciãos, se prostram e adoram a Deus por Seus feitos, e a multidão reunida ao redor do trono louvará e servirá a Ele por toda eternidade, pois “Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima”

terça-feira, 11 de junho de 2019

Imprima as Tuas palavras em meu coração, Senhor! De forma que decretos não me impeçam de lê-las, a insanidade não me faça esquecê-las e que as novas teologias não me privem da verdade.



"Sorria sem câmeras; converse sem celular; ajude sem platéia; ame sem condições."

sábado, 8 de junho de 2019

O que você sabe sobre o Povo Judeu?


Neste ano, 2019, Israel está comemorou 71 anos. Muitos leitores deste artigo certamente já festejaram mais aniversários do que este minúsculo país, com apenas 22.072 km² (menor do que o estado de Sergipe e ainda tendo 60% deste total ocupado por deserto) e 8,1 milhões de cidadãos (sendo 75,3% judeus).
O país possui uma invejável renda per capita de quase US$ 35 mil e índice de qualidade de vida de 0,888 – um dos mais elevados do mundo. Considerada a “cidade que nunca para”, Tel Aviv já conquistou o “Prêmio Mundial de Cidades Inteligentes”. Apesar de ser obrigado a investir cerca 10% do PIB na defesa do país, Israel é o país que mais gasta com pesquisa e desenvolvimento (P&D): são 4,4% do seu PIB, quase o dobro da média (2,4%) dos 34 países desenvolvidos que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Toda empresa multinacional de tecnologia do mundo tem um centro de P&D em Israel, incluindo Intel, IBM, Microsoft, Google, Facebook e Apple.
O país também possui mais empresas listadas na Bolsa Eletrônica “Nasdaq” do que toda a comunidade europeia junta. Tem a maior porcentagem/per capita de computadores pessoais e ainda é um dos líderes globais em comunicações, ciências da vida, desenvolvimento de softwares e em cibersegurança.
Foram cientistas israelenses que criaram, por exemplo, o telefone celular (laboratório da Motorola), a tecnologia de chips para o processador Pentium (laboratório da Intel), o sistema de armazenamento de voz (“voice mail”), o primeiro programa antivírus para computadores e o ICQ, programa de comunicação instantânea pioneiro na Internet.
Apesar dos limitados recursos naturais, o intensivo desenvolvimento industrial e da agricultura ao longo das últimas décadas fez com que Israel se tornasse amplamente autossuficiente na produção de alimentos. Ele é reconhecido mundialmente por suas tecnologias de ponta em reuso, dessalinização e controle de perdas de água. É, também, o único país que terminou o século XX com mais árvores do que o iniciou. E o primeiro no ranking mundial/per capita, tanto em números de artigos científicos como em patentes de equipamentos médicos.
Foi uma empresa israelense que desenvolveu o exame de sangue que permite diagnosticar ataques cardíacos por telefone; o primeiro sistema para detecção de câncer de mama isento de radiação e monitorado por computador; a primeira filmadora em forma de cápsula ingerível, que permite o exame do intestino delgado; e o diagnóstico de câncer e de disfunções digestivas.
Agora imagine um adesivo para o tratamento de diabetes que substitui a necessidade das injeções diárias; uma forma de diagnosticar câncer de pulmão apenas pela respiração, uma maneira de aplicar drogas para tumores usando a nanotecnologia ao invés da quimioterapia ou um dispositivo a laser do tamanho de um barbeador elétrico que alivia a dor e cura feridas no conforto de sua própria casa. Esses dispositivos já existem ou estão em fase de desenvolvimento.
Entre os muitos judeus que têm contribuído significativamente para a humanidade, em todas as áreas do pensamento, estão Albert Sabin (vacina contra a poliomielite), Arthur Solomon Loevenhart (um dos responsáveis pelos medicamentos contra a sífilis), Selman Abraham (descobriu a estreptomicina, valorosa no tratamento da tuberculose), além de Albert Einstein (teoria da relatividade), Siegried Marcus (criou o motor à gasolina) e Sigmund Freud (psicanálise), só para citar alguns. Enfim, contando com apenas 0,2% da população mundial, os judeus já conquistaram 22% de todos os “Prêmios Nobel”.
Em termos educacionais, Israel também se destaca: possui o maior percentual em número de diplomas de curso superior e centros de referências em várias especialidades, como os institutos Technion (Tecnologia) e Weizmann (Ciências), além da Universidade Hebraica de Jerusalém, que está entre as 100 melhores do mundo. E quando o assunto é esporte, Israel disputa torneios com os países europeus, mas ainda assim faz bonito: o time Maccabi Tel Aviv já se sagrou campeão da “Copa Intercontinental”, foi vice-campeão mundial em 2014, quando perdeu para o Flamengo, e ganhou o campeonato europeu de basquetebol seis vezes (é o segundo clube com mais conquistas da Euroliga na história). Também foi a primeira equipe europeia a vencer uma equipe da NBA em solo norte-americano.
Por outro lado, a “Macabíada”, principal evento esportivo do mundo judaico, é o terceiro maior do mundo em número de atletas. Nas competições individuais, porém, uma surpresa: o campeão mundial Gary Gasparov, considerado o “Rei do Xadrez”, revelou que, apesar da fama, já foi discriminado por ser judeu.
Por sua riquíssima cultura milenar, Israel tem muitos motivos para ser aplaudido de pé, seja na música, na dança e na criatividade. É inacreditável como há alguns anos realiza o “Festival de Ópera” em Massada – local que é um monte rochoso, palco de uma batalha histórica. Fica a cerca de 520 metros acima do Mar Morto, ou seja, seria totalmente impróprio para qualquer tipo de evento.
No cinema, são judeus cineastas como Steven Spielberg, atores do porte de Michael Douglas e Barbra Streisand, e humoristas que inspiraram novas formas de fazer comédia, como os Irmãos Marx, Charles Chaplin, Jerry Lewis, Woody Allen e Jerry Seinfeld. Talvez você não saiba, mas dois judeus, Jerry Siegel e Joe Suster, criaram o Super-Homem; um judeu, Bob Kane, inventou o Batman; e Stan Lee, o mais famoso autor do mundo dos quadrinhos, também judeu, é o responsável por personagens como Hulk e Homem-Aranha. E tem mais: o Capitão América foi desenvolvido pelos judeus Joe Simon e Jack Kirby.
No quesito política, Israel se orgulha da democracia e pluralidade, absorvendo as mais variadas ideologias, etnias, credos, gêneros e religiões. Os árabes, por exemplo, são a terceira maior força no Parlamento, possuindo 14 cadeiras de um total de 120, assim como as mulheres têm voz ativa, com 29 representantes.
No Brasil, tivemos muitas contribuições judaicas. Uma delas foi o senador Aarão Steinbruch, já falecido, autor da lei que criou o “13º salário”, sancionada pelo então presidente João Goulart em 1962. O parlamentar também foi o “pai” da aposentadoria por tempo de serviço.
Muitos hábitos, provérbios e até mesmo superstições judaicas se incorporaram à cultura popular brasileira, como as expressões “ficar a ver navios”, “vestir a carapuça” e “passar a mão na cabeça” – esta última relacionada ao ato judaico de abençoar alguém colocando as duas mãos sobre sua cabeça ao mesmo tempo em que se pronuncia uma breve oração em hebraico.
Outras curiosas contribuições de origem judaica, desta vez na culinária, foram a carne de sol e a tapioca. No entanto, com as perseguições, muitos judeus precisaram esconder essa condição e alteraram seus nomes para não serem denunciados, torturados e mortos. Os chamados “cristãos-novos” passaram a se chamar, por exemplo, Alves, Andrade, Alencar, Amaral, Aguiar, Arruda, Bezerra, Brito, Botelho, Cabral, Carvalho, Cardoso, Costa, Duarte, Fonseca, Gomes, Linhares, Machado, Mendes, Oliveira, Pinto, Pereira, Rodrigues, Santos, Silva, Soares, Vasconcelos, Viana, Vieira, entre tantos outros, cujos descendentes se espalharam por todo o território nacional.
Hoje, o Brasil recebe tecnologia de ponta israelense para a agricultura do nordeste brasileiro e expertise em segurança para ser aplicada na segurança de grandes eventos. Além disto, a comunidade judaica atua em variados programas solidários, como o que o Hospital Israelita Albert Einstein desenvolve na Comunidade de Paraisópolis (São Paulo), que beneficia 6 mil moradores com atendimento médico de vanguarda, atividades socioeducativas e assistência biopsicossocial.
Enfim, a terra é árida, e mesmo assim Israel se destaca em questões agrícolas. Não há recursos, e o país desenvolveu alternativas para o combustível. Está cercado por inimigos, e sua tecnologia militar é usada como fonte de inspiração para empresas inovarem…
Mundo: deixe Israel viver.
Deixe os judeus ajudarem a construir um mundo melhor.
A humanidade consciente agradece!

sábado, 1 de junho de 2019

A História Manuscrita do Novo Testamento

Introdução
Num período de quase 1500 anos o Novo Testamento foi copiado à mão em papiro e pergaminho. Temos notícia de uns 5500 manuscritos espalhados em museus e bibliotecas pelo mundo afora. Os documentos vão desde fragmentos de papiro até Bíblias inteiras em grego, produzidas a partir da invenção da imprensa.
É notório que nem todos os manuscritos concordam. Essas pequenas variações requerem uma avaliação cuidadosa para determinar o que ao autor realmente escreveu. Não existe mais nenhum manuscrito original, vamos depender tão somente de cópias dos textos-fontes de autores apostólicos. Por isso precisamos da crítica textual.
Acreditamos que a Bíblia é plena e verbalmente inspirada no seu original. A nossa intenção é procurar dar maior segurança possível ao leitor quanto à fidedignidade da fonte grega de todas versões que temos hoje.


Os problemas
O apóstolo Paulo diz em sua carta aos gálatas: “Vede com que letras grande vos escrevi de meu próprio punho” (6.11). Agora, imaginemos como seria impressionante poder ver a epístola no original ou ver como apóstolo assinava seus textos. Mas, infelizmente, todos os originais já desaparecem e o confronto da cópia de um manuscrito com o original ou com outra cópia, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para escolha do texto exato é impossível.
É importante percebermos que uma das razões para o fim prematuro dos autógrafos do Novo Testamento foi a pouca durabilidade do papiro, que não durava muito mais que o papel atual. É bem possível que os cristãos primitivos tenham lido e relido os originais até que eles se desfizeram por completo. Mas antes que os textos desaparecessem, eles foram copiados. E aí estamos com um outro problema: os erros introduzidos nos textos mediante as cópias feitas manualmente.
Até a invenção da imprensa, muitos erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade dos copistas. E obviamente, à medida, que aumentavam as cópias, mais cresciam as divergências entre elas. Afinal cada copista acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo anterior. O objetivo da Crítica Textual tem sido de avaliar as fontes e reconstruir o texto com a maior probabilidade de ser o original.


Dificuldades de trabalho
O primeiro desafio da Edição Crítica do Novo Testamento está na distância entre as cópias mais completas e os originais. O texto sagrado estava completo por volta do ano 100, sendo que a grande maioria dos livros que o compõem já exista há pelo menos 20 anos antes dessa data, alguns até 50 anos antes, e de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes são do século IV. Ou seja, a distância entre os autógrafos chega perto de três séculos. Isso faz com que o Novo Testamento seja a obra mais bem documentada da Antigüidade.
Só para ilustrar a afirmação acima podemos dizer que os Clássicos (gregos e latinos), que poucas pessoas questionam a autenticidade, possuem um espaço muito maior entre os autógrafos e as cópias. Por exemplo, a cópia mais antiga que se conhece de Platão foi escrita 1300 anos depois de sua morte. Um único dos clássicos que se aproxima do Novo Testamento é Virgílio, falecido no ano 8 a.C., que encontramos um manuscrito completo de suas obras no século IV d.C.
Nesse aspecto, a situação do Novo Testamento é bem diferente. Temos manuscritos do século IV, em pergaminho, e um número considerável de fragmentos em papiro de praticamente todos os livros que compõem o Novo Testamento, que nos levam até o século III, e alguns até o século II.
Há um segundo obstáculo: o grande número de documentos disponíveis. Conforme foi dito no início do trabalho, existem cerca de 5500 manuscritos gregos (língua que o Novo Testamento foi escrito) completos ou fragmentos, fora aproximadamente 1300 manuscritos das versões e milhares de citações dos Pais da Igreja. Ou seja, o problema não está na falta de evidências textuais, mas no excesso. Assim, temos mais um problema que resulta em vantagem, afinal temos uma multiplicação de manuscritos que oferecem ensejo para os mais variados erros e muito mais elementos de comparação. Isso faz com que o texto tenha muito mais apoio crítico do que qualquer outro livro da antiguidade.
O terceiro desafio é o número assustador de variantes existentes. Num processo natural de multiplicação de manuscritos por um período de mais ou menos 1400 anos, foram surgindo inúmeras variações textuais. Notemos que as variações são de pouca importância doutrinária. Por exemplo, são variações na ordem de palavras, no uso de diferentes preposições e outras, o que na prática não tem como ser representado na língua portuguesa.


A preparação do texto
Conforme dissemos acima, até o século XV, os textos eram transmitidos a partir de cópias manuais, usando material muito rústico.


Papiro
O papiro foi utilizado nas primeiras cópias do Novo Testamento, já que era o principal material de escrita da Antigüidade.
O papiro era um tipo de junco, com caule triangular, com a grossura de um braço, com altura que variava entre 2 e 4 metros, que crescia nas margens do Lago Huleh, na Fenícia, no vale do Jordão e junto Nilo (onde foram encontrados os mais antigos fragmentos de papiro conhecidos, que constam de 2850 a.C.). A folha era feita com a medula do caule cortada em tiras estreitas e postas em duas camadas transversais sobre uma superfície plana. Depois eram batidas com um objeto de madeira, e se colocavam por causa da substância liberada da medula. Em seguida era seca ao sol e alisada, e estava pronta para a escrita.
O tamanho médio de uma folha era de 18 x 25cm, que podia variar de acordo com a finalidade. Várias podiam ser coladas pela borda para formar um rolo, que geralmente não tinha mais do que 10 metros de comprimento. O texto normalmente aparecia em colunas de 7 cm de altura, com intervalo de 1,5 cm ou 2 cm, com um pequeno espaço para correções e anotações. As margens superiores e inferiores eram maiores. A margem do começo do rolo era ainda maior. Nos rolos utilizados com maior freqüência, usa-se um bastão roliço, cujas pontas sobressaiam acima e abaixo.
Como regra só se escrevia sobre um lado, exceto em caso de escassez que se utilizava o verso. A tinta era feita com fuligem, goma e água, e a escrita era feita com uma cana de 15 a 40 cm de comprimento, de uma planta vinda também do Egito.
O papiro foi utilizado como material para escrita até a conquista do Egito pelos árabes, em 641, quando ficou impossível importar o material. Sendo utilizado principalmente na literatura secular a partir do século IV.
A primeira descoberta moderna de papiros ocorreu em 1778 numa província do Egito, chamada Fauim, dessa data em diante, milhares têm sido descobertos, principalmente no Egito, graças ao clima seco que favorece em muito a sua preservação.


O pergaminho
Outro material utilizado era o pergaminho, que era mais durável que o papiro. Ele era feito em peles de carneiro ou ovelha submetido a um banho de cal e em seguida raspada e polida com pedra-pomes. Depois eram lavada, novamente raspadas e colocadas para secar em molduras de madeira a fim de evitar pregas ou rugas. No final do processo recebiam uma ou mais demãos de alvaidade. A etimologia vem da cidade de Pérgamo, onde processo foi desenvolvido por volta do século II a.C.
É interessante perceber que o seu uso já era conhecido desde o século XVIII a.C., só que bem menos utilizado do que o papiro. O pergaminho só conseguiu superar o papiro somente no século IV d.C, por causa do seu custo elevado, até o final da Idade Média, quando foi substituído pelo papel, que foi inventado na China começo do século I, e no século XII, foi introduzido na Europa por comerciantes árabes.
Os pergaminhos eram escritos com penas de bronze ou cobre. Os remígios de ganso acabaram substituindo as peças metálicas. A tinta era feita a partir de substâncias vegetais ou minerais. A cor mais comum era preta ou a vermelha, todavia eram produzidas tintas douradas e prateadas. As linhas eram marcadas por um estilete, podendo ser horizontais ou verticais.
Há um tipo de pergaminho conhecido como palimpsesto, que era aquele cuja obra havia sido raspada para receber um texto novo, já que o material era caríssimo. Tal prática foi condenada para o uso de pergaminhos bíblicos para outros propósitos no ano de 692, pelo Concílio de Trullo. Usam-se vários métodos para que se possa restaurar o texto original: reagentes químicos (que acabavam estragando o pergaminho); fotografia de palimpsesto (iluminação do pergaminho com raios ultravioleta afim de enxergar a escrita).


Códice
Adotou-se o preguear dos manuscritos nas suas bordas e juntar uma série, formando uma espécie de caderno. Em obras maiores, faziam-se cadernos com um número menor de folhas, mas dobradas, como nos livros modernos. Os cadernos variavam de oito, dez ou doze folhas, todavia já foram encontrados até com cem. Surgem os chamados códices.
Os estudiosos têm afirmado que os códices surgiram primeiramente em Roma, no início do Cristianismo. Os cristãos, por questões de praticidade, foram os responsáveis pela popularização do tipo: permitindo que os textos bíblicos estivessem num único livro, a maior rapidez na localização de passagens, mais baratos (escritos dos dois lados da folha).
Em segundo lugar, os gentios convertidos ao cristianismo, parece que optaram pelo códice para diferenciar dos livros usados pelos judeus e pelos pagãos.


Escrita
A escrita mais comum nos manuscritos mais antigos do Novo Testamento, assim como de muitos textos literários era a uncial ou maiúscula. No texto sagrado ela era caracterizada por ser mais arredondada do que nos documentos literários, sem espaço entre palavras, sem pontuação e com abreviações bem definidas.
A outra forma de escrita era com letras menores ligadas, chamadas de cursivas. Usada, principalmente, com cartas familiares, recibos, testamentos etc. Normalmente os termos “cursivo” e “minúsculo” são empregados sem distinção. Alguns atribuem o primeiro à escrita informal e de documentos não-literários e o segundo para os literários desenvolvidos a partir da cursiva.
No século IX, ocorreu uma reforma na escrita, passou a usar letras pequenas, chamadas de minúsculas na produção de livros. Mais fluidas e rápidas, demandavam menos tempo e reduziam o preço dos manuscritos, apesar da difícil leitura.
A mudança foi gradual. Fixa-se o século XI, como o período no qual somente as minúsculas eram utilizadas. Muitos manuscritos no período intermediário, foram produzidos numa forma de combinação de uncial com minúscula.


Abreviações
O uso de abreviações já aparece nas cópias mais antigas do Novo Testamento, provavelmente com objetivo de poupar espaço. Elas eram do tipo contração, suspensão, ligaturas ou símbolos. É importante salientar que as contrações, diferentemente, das outras abreviações, são utilizadas como forma de reverencia ao nome Deus, principalmente no texto hebraico. É notório que essa prática é limitada ao texto bíblico e outras fontes cristãs, mas quando essas palavras estão sendo utilizadas em outro sentido, elas não são contraídas.


Formato
Os manuscritos eram variados em relação ao formato ou tamanho. Os menos eram de uso privado, os maiores na liturgia. O menor conhecido é o do Apocalipse, do século IV, de apenas uma página, que mede 7,7 x 9,3 cm e o maior é chamado Códice Gigante, do século XIII, com 49 x 89,5 cm.
O texto não seguia nenhuma forma muito rígida na página. Os papiros possuíam dezenas de colunas, os códices eram limitados ao tamanho das páginas.


Orientações para o leitor
Mesmo nos manuscritos mais antigos, encontramos freqüentemente o uso de informações auxiliares. Por exemplo:
Prólogos: exceto o Apocalipse, todos os textos do Novo Testamento trazem notas introdutórias, tratando do autor do conteúdo e a origem do texto. Os prólogos foram preparados durante períodos de controvérsias em a Igreja de Roma e Marcião, defensor cânon com o evangelho de Lucas e dez epistolas de Paulo, no século II.
Capítulos. Eusébio preparou uma divisão em seções para fins sinópticos, mas na maioria dos manuscritos encontramos outro tipo de divisão, ordenando os textos em relação ao conteúdo. Cada seção é identificada como um capítulo, levando uma inscrição. A divisão em capítulos, utilizada nas edições modernas, foi criada bem no início do século XIII, pelo arcebispo de Cantuária, Estevão Langton. Já a divisão em versículos surgiu com o editor parisiense Roberto Estáfano: o NT em 1551 e o AT em 1555.


Fontes documentais
As fontes documentais dividem-se em: (a) manuscritos gregos, (b) antigas versões e (c) citações feitas por autores cristãos antigos.


(a) Manuscritos gregos
São aproximadamente 5500, classificados de acordo com o material e o estilo da escrita: papiros, unciais e minúsculos,


Papiros
São conhecidos 96 papiros, escritos em uncial até o século IV. A maioria são fragmentos de códices. São os manuscritos mais antigos conhecidos do Novo Testamento.


Unciais
São os manuscritos feitos em pergaminho quando o papiro caiu em desuso, no século IV, e utilizados até o século XI, ou seja, durante sete séculos. A escrita manteve o mesmo padrão dos papiros, somente um pouco maiores.


Minúsculos
São manuscritos que carecem de valor crítico; são importantes apenas como testemunhas da história medieval do texto do Novo Testamento. Foram documentos preparados em escrita minúscula, entre os séculos IX e XVI, quando começam a surgir textos gregos impressos.


Lecionários
Os cristãos herdaram uma prática comum entre os judeus: ler textos bíblicos nas reuniões de culto em unidades adequadas ao calendário anual ou à ordem eclesiástica. Nesta prática eles usavam os chamados lecionários. Alguns apresentavam lições completas para cada dia da semana, outros só para sábados, domingos ou dias santificados. Provavelmente os lecionários surgiram no fim do século III ou início do século IV.


Óstracos
Na Antiguidade, ainda podemos encontrar um outro tipo de material, o óstraco: fragmentos de jarro quebrado ou louça contendo frases curtas, escritas com objetos pontiagudos. Representam a literatura de uma classe que não podia comprar o papiro ou que não considerava tal escrita importante o suficiente para justificar tal compra.


Talismãs
São fontes preparadas como talismãs ou amuletos, em madeira, cerâmica, papiro ou pergaminho. Contêm partes do Texto Sagrado. São conhecidos apenas nove talismãs do Novo Testamento.


(b) Antigas versões
Conforme afirmado acima, a segunda fonte mais importante para chegarmos à vontade última dos autores do Novo Testamento são as antigas versões. Surgidas em decorrência do Cristianismo, que se espalhava pelo mundo grego. As versões surgem para aqueles que não dominavam a língua grega. Os manuscritos mais antigos não ultrapassem o início do século IV ou, quando muito, o final do III, o texto que evidenciam representa um estágio de desenvolvimento provavelmente não posterior ao final do século II. Daí o valor das versões para a crítica textual não estar propriamente nelas mesmas, mas nas indicações que dão do texto grego de que foram traduzidas.


Siríaca
Provavelmente, as primeiras traduções do Novo Testamento foram feitas em siríaco, língua falada na Mesopotâmia, na Síria e em partes da Palestina, com algumas diferenças dialetais, por volta do ano 150. A tradução surgiu da necessidade de leitura de pessoas que tinham dificuldade com o grego.


Latina
São conhecidas duas versões: a Antiga Latina, traduções feitas até o século IV, e a Vulgata Latina, feita por Jerônimo no final do século IV e início do V. Presume-se que as traduções latinas começaram no norte da África, em Cartago, que era um dos centros da cultura romana, provavelmente no final do século II. Outras traduções começaram a surgir em países europeus em que o grego estava em declínio, sendo superado pelo latim. Portanto, a Antiga Latina está dividida em duas famílias ou grupos de traduções: a africana, mais antiga e mais livre em relação ao original, e a européia consistem em nova tradução. Alguns têm pensado numa terceira família, a italiana, provavelmente surgida no século IV para amenizar as diferenças entre as outras duas traduções. Todavia, a maioria dos críticos não aceita essa tríplice divisão, eles argumentam a terceira família representa apenas uma forma da Vulgata.
Com tantas traduções é inevitável um maior número de divergências textuais. Agostinho já falava nas dúvidas que as inúmeras traduções traziam. Jerônimo foi designado pelo Papa Damaso em 383 a rever toda a Bíblia Latina. No ano seguinte a revisão dos evangelhos ficou pronta, onde as variações eram maiores. Jerônimo procurou eliminar as adições e harmonizações presentes nas versões latinas e fez alterações em 3500 lugares. Em 405, toda a Bíblia ficou pronta e só muito lentamente foi conquistando prioridade, até que nos séculos VIII e IX impôs-se de modo quase universal, embora a Antiga Latina continuasse sendo copiada e usada até por volta do século XIII. O título honorífico de “Vulgata”, (“comum” ou “de uso público”) dado pela primeira vez no final da Idade Média. Ela acabou se oficializando como a Bíblia oficial Católica no Concílio de Trento, em 1546.


Copta
O copta significa o último estágio da língua egípcia antiga. No início do Cristianismo ela consistia em meia dúzia de dialetos e era escrita em unciais gregos com outras letras. O Cristianismo entra com facilidade nessa região graças às colônias judaicas ali existentes, principalmente na Alexandria. Portanto, foi ali, longe da influência do grego, que fez-se necessária a primeira tradução copta do Novo Testamento, no início do século III.


Outras versões
Há um número grande de outras versões antigas, como a Gótica, a Armênia, a Etíope, a Geórgica, a Nubiana, a Arábica e a Eslava, mas de menor importância para a crítica textual, por não haverem sido traduzidas diretamente do texto grego. A Armênia, conhecida como “a rainha das versões”, por sua beleza e exatidão, é que preserva o maior número deles: cerca de 1300.


(c) Citações patrísticas
As citações dos Pais da Igreja (antigos escritores cristãos) representam o terceiro grupo de fontes documentais para o estudo crítico do Novo Testamento: citações encontradas nos comentários, sermões, cartas e outros trabalhos dos chamados Pais da Igreja, especialmente os situados até os séculos IV ou V. É importante perceber que são tantas as citações que poderíamos reconstituir quase todo o Novo Testamento através delas, mesmo sem os manuscritos gregos e versões. Somente com Orígenes isso quase já seria possível.
O problema das citações é que a maioria delas foi feita de memória, portanto, são inexatas. Contudo são importantes por evidenciarem o texto antigo, do qual pouco testemunho de manuscrito existe, quanto por demonstrar as primeiras tendências que influenciaram o desenvolvimento histórico do texto neotestamentário. Em quase todos os casos podem ser datadas e localizadas geograficamente, permitindo também que se verifique a data e a procedência geográfica dos manuscritos. As citações dos Pais da Igreja representam um auxílio valioso para a reconstituição da história primitiva do texto do Novo Testamento e, por conseguinte, de sua mais antiga forma textual acessível.


A história do texto escrito
Agora estamos no núcleo do problema do Novo Testamento: a tentativa de explicar o surgimento das primeiras leituras divergentes e a influência que elas exerceram em todas a transmissão do texto.


Cópias livres
Quando o Cristianismo estava sob intensa oposição judaica e romana, os livros do Novo Testamento, nem sempre as cópias podiam ser preparados em nas melhores circunstâncias. À exceção de Lucas, que era médico e provavelmente conseguiu recursos financeiros com o Teófilo, para quem o Evangelho e o Livro dos Atos são dedicados, mostra um grande cuidado no preparo do texto. É bem possível que Teófilo tenha financiado as primeiras cópias e tenha influenciado a audiência seleta e mais numerosa do livro. Todavia parece que nenhum outro escritor apostólico pôde dispor de tantos recursos em seus trabalhos literários. Paulo também era erudito, mas, além de parecer sofrer de deficiência visual, algumas epístolas ainda tiveram de ser escritas enquanto era prisioneiro, o que em certo sentido também aconteceu com João em relação ao Apocalipse. É óbvio nessas circunstâncias tanto Paulo quanto João, além de Pedro, utilizavam-se de assistentes, contudo é bem pouco provável que fosses redatores profissionais.
Provavelmente as primeiras cópias passaram pelo mesmo problema, já que as cartas apostólicas eram enviadas a uma congregação ou a um individuo, ou os evangelhos escritos para satisfazerem às necessidades de um público leitor em particular, os autógrafos estavam separados e espalhados entre as várias comunidades cristãs e, ao ser copiados, não tiveram a oportunidade de receber um tratamento profissional. Por causa da situação financeira e da necessidade de reproduzir os textos, que tinham pouca durabilidade, além da rápida expansão do Cristianismo, as comunidades utilizavam copistas amadores e pessoas bem-intencionadas. Paulo cita em sua epistola aos colossenses (4:16) uma carta à igreja de Laodicéia, que não temos nenhuma cópia. O texto parece indicar que havia troca de correspondências entre as várias igrejas ainda no período apostólico, mediante a elaboração e o envio de cópias.
Assim, os originais começaram a ser reproduzidos dentro do chamado período apostólico, e as primeiras variantes começaram, por causa da falta de um revisor.
É claro que uma outra fonte de variantes era o próprio descuido na exatidão literal. Os cristãos não tinham a mesma preocupação que os judeus ao citarem o Antigo Testamento, estavam mais interessados no sentido do que no texto propriamente dito. Por isso, os Pais da Igreja citam muitas vezes o texto de maneira inexata, valendo-se de alusões e da memória. Que são, na realidade, variantes intencionais, a maior parte das variantes do texto sagrado dos cristãos. São correções com base na preferência pessoal, na tradição ou em algum relato paralelo.
Não quer dizer que os cristãos não considerassem o Novo Testamento como “Escritura”. Vemos que tanto o Novo como o Antigo Testamento são colocados no mesmo patamar de importância. O apóstolo Pedro classifica alguns textos do apóstolo Paulo “Escritura”. Possivelmente a primeira coleção de textos paulinos foi feita na Ásia Menor, no período apostólico. Na Epistola de Barnabé, no Didaquê e na carta escrita à Igreja de Corinto por Clemente (todas obras as três obras pós-apostólicas de regiões distintas, que eram antigos centros do cristianismo) encontramos citações aos evangelhos sinóticos, além de Atos, e algumas epístolas. Paulo quando escreve a Timóteo, (5. 18) ao cita o evangelho de Lucas (10.7) e o livro de Deuteronômio (25.4), conferindo a mesma autoridade escriturística a ambos.
O mais provável é que a maioria destas alterações tenha surgido como tentativa dos escribas em melhorar o texto, fazendo correções ortográficas, gramaticais, estilísticas e até mesmo exegéticas. Num período em que havia muitas heresias, certas palavras poderiam gerar más interpretações. Assim os copistas para guardar a essência do texto faziam alterações de certas palavras ou expressões, algumas vezes mudando até mesmo o sentido. Jerônimo chega a reclamar que as mudanças que os copistas realizam, acabam gerando mais erros.


Textos locais
Com a expansão do Cristianismo várias cópias foram levadas a diversas regiões, cada uma com as suas próprias variantes, e ao passarem pelo processo de cópia mantinham as variantes e ainda eram adicionadas outras. Desse modo, os manuscritos que circulavam numa localidade tendiam assemelhavam-se mais entre si que os de outras localidades. Mesmo na mesma região era praticamente impossível que houvesse dois textos exatamente iguais; todavia, certos grupos de manuscritos poderiam assemelhar-se uns aos outros mais intimamente que a outros grupos do mesmo texto local. Alguns textos poderiam se tornar mistos, quando os manuscritos podiam ser comparados a outras cópias de outros lugares e corrigidos por elas. A tendência era de não misturar os textos.


Texto Alexandrino
A Alexandria superou Atenas, no período helenístico, tornando-se o centro de mais importante de cultura do mediterrâneo. Quem nunca ouviu falar na Biblioteca de Alexandria, com seus 700.000 volumes? Foi lá que os textos de Homero passaram pela primeira tentativa de edição crítica. Zenódoto de Éfeseo, primeiro diretor da biblioteca, comparou diversos manuscritos da Ilíada e da odisséia, em 274 a.C., tentando restaurar o texto original. Sem dúvida, que esse cuidado acabou influenciando os cristãos da região, fazendo com que eles procurassem a excelência no texto. Faltava na região as reminiscências pessoais e a tradição oral, o que teria aumentado a exigência quanto à exatidão do texto.
De qualquer forma, o texto alexandrino é considerado o melhor texto, com pouquíssimas modificações gramaticais ou estilísticas, cerca de 2% ou 3%.


Texto ocidental
Nas regiões dominadas por Roma, desenvolveu-se outro tipo de texto, o chamado texto ocidental, bem diferente nos evangelhos e principalmente em Atos, onde é quase 10% mais longo que a forma original, o que já fez supor a existência de duas edições desse livro.
A principal característica é o uso da paráfrase. Observa-se que palavras, frases e até partes inteiras foram modificadas, omitidas ou acrescentas. O motivo disso parece ter sido a harmonização, principalmente no caso dos evangelhos sinóticos, ou mesmo, o enriquecimento da narrativa com a inclusão de alguma tradição, envolvendo umas poucas declarações e incidentes da vida de Jesus e os apóstolos.


Texto Cesareense
Provavelmente tem origem no Egito, assim como o texto alexandrino, de onde teria sido levado para Cesaréia por Orígenes.


Texto Bizantino
Possivelmente, resultado da revisão de antigos textos locais feita por Luciano de Antioquia, pouco do seu martírio no ano de 312.


Unificação textual
Com a conversão de Constantino, em 312, entramos numa nova fase na história do Novo Testamento, principalmente com Edito de Milão, no ano seguinte, colocando o Cristianismo no mesmo patamar que qualquer outra religião do Império Romano, ordenando que as propriedades da igreja que haviam sido confiscadas fossem devolvidas. Com isso, houve um aumento considerável na circulação de textos sagrados, que não mais corriam o risco de apreensão e destruição em praça pública.
No caso do texto, percebemos que uma maior integração dos cristãos possibilitou a comparação de manuscritos e a obtenção de um tipo de texto que não tivesse tantas variantes. E os textos locais foram pouco a pouco cedendo lugar a único texto.
Possivelmente, o primeiro tipo de texto a circular em Constantinopla talvez não tenha sido o bizantino. Eusébio, em 331, foi encarregado por Constantino de preparar 50 cópias das Escrituras em pergaminho para as igrejas da nova capital. Eusébio usava o texto cesarense, portanto, é provável que tenha sido esse o tipo de texto primeiramente usado ali. É provável que essas cópias tenham sido submetidas a correções com base no texto luciânico, até serem finalmente substituídas por novas cópias essencialmente bizantinas, produzidas em algum escritório ou mosteiro local. Tornou-se um procedimento muito comum.
A Vulgata Latina, de Jerônimo, acabou predominando na Europa Ocidental. Não significa, porém, que o texto de Luciano fosse desconhecido. Muitos manuscritos greco-latinos trazem o texto bizantino, ainda que combinado com variantes da Antiga Latina. Até a Vulgata acabou incorporando algumas formas bizantinas. No século XVI, com a invenção da imprensa, os editores preocuparam-se com a publicação do Novo Testamento grego, e o texto que utilizado o bizantino, e continuou, com pequenas modificações, até o final do século XIX.


Tipos de variantes
Há ainda a necessidade de conhecer a origem e natureza dos erros de transcrição para que o trabalho se torne possível.


Alterações acidentais
Equívoco visual - alguns erros foram cometidos ao confundir o copista certas letras com outras de grafia semelhante.
Outro tipo de equívoco visual é parablepse, que significa pular de uma palavra, frase ou parágrafo para outro, devido a começos ou términos semelhantes, com a omissão de palavras.
Além dos equívocos chamados de ditografia, que são a repetição de uma sílaba ou frase, ou parte de uma frase.
A metátese, que é a transposição de fonemas no interior de um mesmo vocábulo ou a transposição de vocábulos numa mesma frase.
Equívoco auditivo - quando certas vogais e ditongos gregos vieram a ser pronunciados de maneira praticamente idêntica, fenômeno conhecido como iotacismo, bem comum no grego moderno.
Equívoco de memória - poderiam variar desde a substituição de sinônimos, a inversão na seqüência de palavras, quando a mente traía o copista.
Equívoco de julgamento - Quando um copista se deparava com comentários diversos anotados na margem do manuscrito que lhe estivesse servindo de modelo e não dispusesse de outras cópias para efeito de comparação, poderia incluí-lo no texto julgando que de fato devessem estar ali. Por exemplo, um manuscrito do século XIV, há um exemplo de erro de julgamento. O modelo do qual foi copiado o evangelho de Lucas deveria trazer a genealogia de Jesus (3. 3-28) em duas colunas paralelas de 28 linhas cada. Todavia, ao copiar o texto seguindo a ordem das colunas, o escriba o fez seguindo a ordem das linhas, passando de uma coluna para outra. Como resultado, praticamente todos os filhos tiveram seus pais trocados.


Alterações intencionais
Harmonização textual e litúrgica - o copista se sentia tentado a harmonizar os livros que apresentassem passagens paralelas, um pouco divergentes. Principalmente nos evangelhos sinóticos, com muitos textos sendo alterados para uma narrativa mais unificada possível.
É interessante notar que muitas citações do Antigo Testamento eram feitas sem muito rigor pelos apóstolos, e copistas procuravam adaptar à Septuaginta (LXX - tradução do Antigo Testamento para o grego, feita por hebreus).
Alguns textos eram adaptados para ser lidos publicamente nos serviços de culto, e tais arranjos influenciaram a própria transmissão do texto. O exemplo mais claro é o da Oração do Senhor (Mateus 6. 9-13), cuja doxologia “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.”, foi acrescentada para o uso litúrgico, acabou sendo incorporada no texto de muitos manuscritos.
Correção ortográfica, gramatical e estilística - A maioria das alterações ortográficas nos manuscritos bíblicos ocorreu devido à falta de qualquer padronização oficial e à influencia de vários dialetos, assim inúmeros termos gregos acabaram tendo formas diversas na soletração, principalmente os nomes próprios.
Correção histórica e geográfica - Alguns escribas tentaram harmonizar o relato do Evangelho de João da cronologia da Paixão de Cristo com a de Marcos, mudando a “hora sexta” (João 19.14) para a “hora terceira” (Marcos 15.25).
Correção exegética e doutrinária - Algumas vezes o copista se deparava com uma passagem de difícil interpretação, assim ele tentava completar-lhe o sentido, tornando-a mais exata, menos ofensiva ou obscura.
Interpolação de notas marginais, complementos naturais e tradições ­- A inclusão de textos marginais ao corpo textual como apontamentos, correções, interpretações, reações pessoais e mesmo informações gerais quanto ao texto era comum.
Note-se que certas palavras ou expressões que aparecem juntas no texto bíblico ou no uso habitual da Igreja, e a falta de uma delas numa ou noutra passagem levava o copista a acrescentá-la, são os chamados complementos naturais.
Conforme já foi dito, os críticos têm demonstrado que as variantes têm pouca ou nenhuma importância. De qualquer modo, os fatos do Novo Testamento que dizem respeito à fé e à moral são expressos em muitos lugares, o fundo doutrinário fica obscurecido, nem pouco alterado, pelas passagens criticamente incertas. Podemos afirmar com toda a certeza científica que o texto dos cristãos, se não criticamente, foi conservado doutrinariamente incorrupto.


O texto impresso
Entre os séculos XV e XVI, entramos numa nova fase na história do Novo Testamento. Primeiramente a imprensa tornou os trabalhos de reprodução mais rápidos e baratos, além de acabar de uma vez com a multiplicação dos erros de transcrição. Assim, as cópias passaram a ser feitas com muito mais agilidade e precisão, exatamente como haviam sido escritas, salvo raras exceções, a maioria das quais de erros tipográficos de menor importância.
Um segundo fator que ajudou a levar o texto neotestamentário a essa nova fase de desenvolvimento e sistematização foi o movimento renascentista, com sua ênfase nos valores artísticos e literários do homem, que acabou fazendo despertar na Europa um grande interesse pela cultura grega clássica. Conseqüentemente os estudiosos cristãos também começaram a valorizar os manuscritos gregos do Novo Testamento, revisando a Vulgata.


Primeiras edições
Apesar da impressa, a publicação do Novo Testamento em grego não saiu imediatamente. O primeiro produto representativo da tipografia foi justamente a Bíblia, a Vulgata de Jerônimo, em dois volumes, entre 1450 e 1455. Nos 50 anos seguintes, pelo menos cem edições da Vulgata ainda foram preparadas por várias casas editoras da Europa.
Para a língua portuguesa, temos em 1495, em Saragoça, a publicação das epístolas paulinas e dos evangelhos. Naquele ano, em Lisboa, foi publicada, em quatro volumes, uma harmonia dos evangelhos. O Novo Testamento completo saiu em 1681, em Amsterdã, já na versão de João Ferreira de Almeida. A Bíblia completa em português foi publicada em 1753, na Holanda, depois que Jacó den Akker haver terminado a tradução do Antigo Testamento, parada com a morte de Almeida, em 1691, no texto de Ezequiel 48.12.
O cardeal e arcebispo de Toledo Francisco Ximenes de Cisceros (1437-1517), foi o responsável de promover e organizar a primeira impressão do texto grego do Novo Testamento, como parte da chamada Bíblia Poliglota Complutense.
Erasmo de Roterdã (1469-1536), escritor e humanista holandês, produziu, em 1516, o primeiro Novo Testamento grego que chegou ao domínio público, sendo beneficiado com o atraso na divulgação da obra de Ximenes.


O Texto Recebido
Quando o Novo Testamento grego de Erasmo chegou ao público ocorreram diversas reações. De um lado houve ampla aceitação, tanto que ele preparou uma nova edição, e a tiragem total das edições de 1516 e 1519 alcançou 3300 exemplares. A segunda edição, agora intitulada Novum Testamentum, foi a que serviu de base da tradução alemã de Martinho Lutero. De outro lado, a obra foi recebida com grande preconceito e até com hostilidade. Três fatores contribuíram para isso: 1) as diferenças que havia entre sua nova tradução latina e a consagrada Vulgata; 2) as longas anotações, que justificava sua tradução e 3) a inclusão, entre as notas, de comentários sobre a vida desregrada e corrupta de muitos sacerdotes. Clérigos protestaram fazendo uso dos púlpitos, conseqüentemente Universidades, como as de Cambridge e Oxford, proibiram seus alunos de lerem os escritos de Erasmo, e os livreiros de os venderem.
Dentre as críticas levantadas contra Erasmo, uma das mais sérias veio da parte de Lopes de Stunica, um dos editores da Poliglota Complutense, que o acusou de não incluir no texto de 1 João 5.7 e 8 a Coma Joanina. Erasmo replicou que não havia encontrado nenhum manuscrito grego que a contivesse, e prometeu que a incluiria em suas próximas edições se apenas um único manuscrito grego trouxesse a passagem. Um manuscrito foi-lhe trazido, e Erasmo cumpriu sua promessa na terceira edição, de 1522, todavia numa longa nota marginal, ele suspeita do manuscrito como sendo preparado para confundi-lo. Para alguns críticos esse manuscrito parece ter sido falsamente preparado em Oxford, em 1520, por um frade franciscano chamado Froy, extraído da Vulgata Latina.


Edições Intermediárias
Em seguida, temos a preocupação em reunir variantes textuais e estabelecer os princípios de um trabalho textual mais científico, baseado em pesquisas progressivas dos manuscritos gregos, das versões e da literatura patrística. O contexto agora era outro, os estudiosos tinham lutar contra o movimento racionalista, que encontrara no deísmo sua expressão religiosa. Defendendo a existência de uma religião natural, onde a verdade só podia ser alcançada pela razão e pelo método científico, o deísmo encarava as Escrituras como um simples manual ético de origem humana, e colaborou, entre outras coisas, para que sua pureza textual fosse questionada. Os pesquisadores cristãos surgiram nos principais países europeus em defesa do cristianismo histórico e da integridade textual da Bíblia. E, no esforço por provar que o Novo Testamento que dispunham era exatamente àquilo que os autores originais haviam escrito, tiveram também de defrontar-se com o Texto Recebido, no qual os problemas tornaram-se ainda mais graves.
Os críticos, por dois séculos, vasculharam bibliotecas e mosteiros na Europa e em todo o mundo mediterrâneo procurando material que pudesse ser útil. Todavia, continuaram a publicar o Texto Recebido, submetendo-se a ele. Ele era um texto já tradicional e reverenciado por todos, e ninguém se aventuravam a modificá-lo, sob o risco de censura ou até de disciplina eclesiástica.
Durante esse período não ocorreu qualquer progresso real no texto grego do Novo Testamento que estava sendo publicado. Todavia, as muitas variantes que se tornaram conhecidas mediante o progressivo e acurado exame dos manuscritos, o início de sua classificação de acordo com as famílias textuais e o desenvolvimento das teorias críticas ofereceram a base necessária para que tal progresso se concretizasse no período seguinte. Nos confrontos entre os partidários do Texto Recebido e os que estavam acreditavam na superioridade dos manuscritos mais antigos, a vitória dos últimos estava garantida. As evidências acumuladas tornavam evidente que o texto precisava ser corrigido, para o próprio bem do cristianismo histórico, principalmente por causa dos ataques racionalistas. Contudo, o reinado do Texto Recebido estava chegando ao fim. Os princípios que permitiriam essa conquista já estavam praticamente estabelecidos e necessitavam apenas ser aprimorados.


Edições Modernas
No século XIX, a predominância do Texto Recebido foi finalmente interrompida. Os esforços dos pesquisadores nos dois séculos anteriores fizeram com que a crítica textual realmente se tornasse uma ciência. A distribuição dos manuscritos nos diferentes grupos permitiu que os muitos documentos começassem a ser organizados e que a história da tradição manuscrita fosse reconstruída, levando ao desenvolvimento sistemático de metodologias e ao tratamento mais científico das inúmeras variantes. Apesar dos críticos ainda divergirem com relação às teorias, todos buscavam um texto que estivesse o mais próximo possível do original e, nesse novo período, rompendo com o Texto Recebido. Surgindo o texto crítico e, com ele, o período moderno da crítica textual do Novo Testamento.


Conclusão
Depois de quase 500 anos de história do texto do Novo Testamento e das mais de mil edições surgidas desde século XV com Erasmo, dos vários estudos, os editores críticos de um modo geral concordam com o texto crítico moderno e apenas um grupo bem pequeno de variantes é contestada. E mesmo que surja uma edição nova com muitas variantes, já está mais ou menos claro que o Novo Testamento grego está muito próximo dos textos primitivos originais. O chamado Texto Recebido foi abandonado pela maioria dos estudiosos, que defendiam como a forma mais próxima do original.

Apesar dos erros dos copistas, a integridade do texto foi mantida. Sua coerência interna é uma evidência muito forte. A Crítica Textual tem demonstrado que a Palavra de Deus fala hoje com a mesmo eloqüência que falava no período apostólico. Podemos pegar a Bíblia sem medo e dizer seguramente que é a Palavra de Deus transmitida na sua essência através dos séculos.

A História da Bíblia

A Bíblia – o livro mais lido, traduzido e distribuído do mundo – desde as suas origens, foi considerada sagrada e de grande importância. E, como tal, deveria ser conhecida e compreendida por toda a humanidade. A necessidade de difundir seus ensinamentos, através dos tempos e entre os mais variados povos, resultou em inúmeras traduções para os mais variados idiomas. Hoje é possível encontrar a Bíblia, completa ou em porções, em mais de 2.527 línguas diferentes (levantamento de dez/2010).
Os Originais

Os originais da Bíblia são a base para a elaboração de uma tradução confiável das Escrituras. Porém, não existe nenhuma versão original de manuscrito da Bíblia, mas sim cópias de cópias. Todos os autógrafos, isto é, os livros originais, como foram escritos por seus autores, se perderam. As traduções confiáveis das Escrituras Sagradas baseiam-se nas melhores e mais antigas cópias que existem e que foram encontradas graças às descobertas arqueológicas.
Grego, hebraico e aramaico. Esses foram os idiomas utilizados para escrever os originais das Escrituras Sagradas.
Antigo Testamento
A maior parte foi escrita em hebraico e alguns textos em aramaico.
Novo Testamento
Foi escrito originalmente em grego, que era a língua mais utilizada na época.
Para a tradução do Antigo Testamento, a SBB utiliza a Bíblia Stuttgartensia, publicada pela Sociedade Bíblica Alemã. Já para o Novo Testamento, é utilizado The Greek New Testament, editado pelas Sociedades Bíblicas Unidas. Essas são as melhores edições dos textos hebraicos e gregos que existem hoje, disponíveis para tradutores.
Antigo Testamento Hebraico

Muitos séculos antes de Cristo, os escribas, sacerdotes, profetas, reis e poetas do povo hebreu mantiveram registros de sua história e de seu relacionamento com Deus. Esses registros tinham grande significado e importância em suas vidas e, por isso, foram copiados muitas vezes, e passados de geração em geração.
Com o passar do tempo, esses relatos sagrados foram reunidos em coleções conhecidas por:
A Lei
Composta pelos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
Os Profetas
Incluíam os livros de Isaías, Jeremias, Ezequiel, os Doze Profetas Menores, Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis.
As Escrituras
Reuniam o grande livro de poesia, os Salmos, além de Provérbios, Jó, Ester, Cantares de Salomão, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas.
Esses três grandes conjuntos de livros, em especial o terceiro, não foram finalizados antes do Concílio Judaico de Jamnia, que ocorreu por volta de 95 d.C.
Os livros do Antigo Testamento foram escritos em longos pergaminhos confeccionados em pele de cabra e copiados cuidadosamente pelos escribas. Geralmente, cada um desses livros era escrito em um pergaminho separado, embora A Lei frequentemente fosse copiada em dois grandes pergaminhos. O texto era escrito em hebraico – da direita para a esquerda – e, apenas alguns capítulos, em dialeto aramaico.
Hoje se tem conhecimento de que o pergaminho de Isaías é o mais remoto trecho do Antigo Testamento em hebraico. Estima-se que foi escrito durante o século II a.C. e se assemelha muito ao pergaminho utilizado por Jesus na Sinagoga, em Nazaré. Foi descoberto em 1947, juntamente com outros documentos em uma caverna próxima ao Mar Morto.
Novo Testamento Grego

Os primeiros manuscritos do Novo Testamento que chegaram até nós são algumas das cartas do Apóstolo Paulo, destinadas a pequenos grupos de pessoas de diversos povoados que acreditavam no Evangelho por ele pregado. A formação desses grupos marca o início da igreja cristã.
As cartas de Paulo eram recebidas e preservadas com todo o cuidado. Não tardou para que esses manuscritos fossem solicitados por outras pessoas. Dessa forma, começaram a ser largamente copiados e as cartas de Paulo passaram a ter grande circulação.
A necessidade de ensinar novos convertidos e o desejo de relatar o testemunho dos primeiros discípulos em relação à vida e aos ensinamentos de Cristo resultaram na escrita dos Evangelhos que, na medida em que as igrejas cresciam e se espalhavam, passaram a ser muito solicitados. Outras cartas, exortações, sermões e manuscritos cristãos similares também começaram a circular.
O mais antigo fragmento do Novo Testamento hoje conhecido é um pequeno pedaço de papiro escrito no início do século II d.C. Nele estão contidas algumas palavras de João 18.31-33, além de outras referentes aos versículos 37 e 38. Nos últimos 100 anos descobriu-se uma quantidade considerável de papiros contendo o Novo Testamento e o texto em grego do Antigo Testamento.
Outros Manuscritos
Além dos livros que compõem o nosso atual Novo Testamento, havia outros que circularam nos primeiros séculos da era cristã, como as Cartas de Clemente, o Evangelho de Pedro, o Pastor de Hermas, e o Didache (ou Ensinamento dos Doze Apóstolos).
Durante muitos anos, embora os evangelhos e as cartas de Paulo fossem aceitos de forma geral, não foi feita nenhuma tentativa de determinar quais dos muitos manuscritos eram realmente autorizados. Entretanto, gradualmente o julgamento das igrejas, orientado pelo Espírito de Deus, reuniu a coleção das Escrituras que constituíam um relato mais fiel sobre a vida e ensinamentos de Jesus. No Século IV d.C. foi estabelecido entre os concílios das igrejas um acordo comum, e o Novo Testamento foi constituído.
Os dois manuscritos mais antigos da Bíblia em grego podem ter sido escritos naquela ocasião – o grande Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus. Estes dois inestimáveis manuscritos contêm quase a totalidade da Bíblia em grego. Ao todo são aproximadamente 20 manuscritos do Novo Testamento escritos nos primeiros cinco séculos.
Quando Constantino proclamou e impôs o cristianismo como única religião oficial no Império Romano, no final do Século IV, surgiu uma demanda nova e mais ampla por boas cópias de livros do Novo Testamento. É possível que o grande historiador Eusébio de Cesareia (263–340) tenha conseguido demonstrar ao imperador o quanto os livros dos cristãos já estavam danificados e usados, porque o imperador encomendou 50 cópias para igrejas de Constantinopla. Provavelmente, esta tenha sido a primeira vez que o Antigo e o Novo Testamentos foram apresentados em um único volume, agora denominado Bíblia.
A primeira tradução
Estima-se que a primeira tradução foi elaborada entre 200 a 300 anos antes de Cristo. Como os judeus que viviam no Egito não compreendiam a língua hebraica, o Antigo Testamento foi traduzido para o grego. Porém, não eram apenas os judeus que viviam no estrangeiro que tinham dificuldade de ler o original em hebraico: com o cativeiro da Babilônia, os judeus da Palestina também já não falavam mais o hebraico.
Septuaginta (ou Tradução dos Setenta)
Esta foi a primeira tradução. Realizada por 70 sábios, ela contém sete livros que não fazem parte da coleção hebraica, pois não estavam incluídos quando o cânon (ou lista oficial) do Antigo Testamento foi estabelecido por exegetas israelitas no final do Século I d.C. A igreja primitiva geralmente incluía tais livros em sua Bíblia. Eles são chamados apócrifos ou deuterocanônicos e encontram-se presentes nas Bíblias de algumas igrejas. Esta tradução do Antigo Testamento foi utilizada em sinagogas de todas as regiões do Mediterrâneo e representou um instrumento fundamental nos esforços empreendidos pelos primeiros discípulos de Jesus na propagação dos ensinamentos de Deus.
Outras traduções
Outras traduções começaram a ser desenvolvidas por cristãos novos nas línguas copta (Egito), etíope (Etiópia), siríaca (norte da Palestina) e em latim – a mais importante de todas as línguas pela sua ampla utilização no Ocidente. Por haver tantas versões parciais e insatisfatórias em latim, no ano 382 d.C, o bispo de Roma nomeou o grande exegeta Jerônimo para fazer uma tradução oficial das Escrituras.
Com o objetivo de realizar uma tradução de qualidade e fiel aos originais, Jerônimo foi à Palestina, onde viveu durante 20 anos. Estudou hebraico com rabinos famosos, e examinou todos os manuscritos que conseguiu localizar. Sua tradução tornou-se conhecida como “Vulgata”, ou seja, escrita na língua de pessoas comuns (“vulgus”). Embora não tenha sido imediatamente aceita, tornou-se o texto oficial do cristianismo ocidental. Neste formato, a Bíblia difundiu-se por todas as regiões do Mediterrâneo, alcançando até o Norte da Europa.
Na Europa, os cristãos entraram em conflito com os invasores godos e hunos, que destruíram uma grande parte da civilização romana. Em mosteiros, nos quais alguns homens se refugiaram da turbulência causada por guerras constantes, o texto bíblico foi preservado por muitos séculos, especialmente a Bíblia em latim na versão de Jerônimo.
Não se sabe quando e como a Bíblia chegou até as Ilhas Britânicas. Missionários levaram o evangelho para Irlanda, Escócia e Inglaterra, e não há dúvida de que havia cristãos nos exércitos romanos que lá estiveram no segundo e terceiro séculos. Provavelmente a tradução mais antiga na língua do povo desta região é a do Venerável Bede. Relata-se que, no momento de sua morte, em 735, ele estava ditando uma tradução do Evangelho de João. Entretanto, nenhuma de suas traduções chegou até nós. Aos poucos, as traduções de passagens e de livros inteiros foram surgindo.
Primeiras escrituras impressas
Na Alemanha, em meados do século 15, um ourives chamado Johannes Gutenberg desenvolveu a arte de fundir tipos metálicos móveis. O primeiro livro de grande porte produzido por sua prensa foi a Bíblia em latim. Cópias impressas decoradas à mão passaram a competir com os mais belos manuscritos. Esta nova arte foi utilizada para imprimir Bíblias em seis línguas antes de 1500 – alemão, italiano, francês, tcheco, holandês e catalão. E em outras seis línguas até meados do século 16 – espanhol, dinamarquês, inglês, sueco, húngaro, islandês, polonês e finlandês.
Finalmente as Escrituras realmente podiam ser lidas na língua destes povos. Mas essas traduções ainda estavam vinculadas ao texto em latim. No início do século 16, manuscritos de textos em grego e hebraico, preservados nas igrejas orientais, começaram a chegar à Europa ocidental. Havia pessoas eruditas que podiam auxiliar os sacerdotes ocidentais a ler e apreciar tais manuscritos.
Uma pessoa de grande destaque durante este novo período de estudo e aprendizado foi Erasmo de Roterdã. Ele passou alguns anos atuando como professor na Universidade de Cambridge, Inglaterra. Em 1516, sua edição do Novo Testamento em grego foi publicada com seu próprio paralelo da tradução em latim. Assim, pela primeira vez, estudiosos da Europa ocidental puderam ter acesso ao Novo Testamento na língua original, embora, infelizmente, os manuscritos fornecidos a Erasmo fossem de origem relativamente recente e, portanto, não eram completamente confiáveis.
Descobertas arqueológicas
Várias foram as descobertas arqueológicas que proporcionaram o melhor entendimento das Escrituras Sagradas. Os manuscritos mais antigos que existem de trechos do Antigo Testamento datam de 850 d.C. Existem partes menores bem mais antigas como o Papiro Nash do segundo século da era cristã. Mas sem dúvida a maior descoberta ocorreu em 1947, quando um pastor beduíno, que buscava uma cabra perdida de seu rebanho, encontrou por acaso os Manuscritos do Mar Morto, na região de Jericó.
Durante nove anos, vários documentos foram encontrados nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, constituindo-se nos mais antigos fragmentos da Bíblia hebraica que se têm notícias. Escondidos ali pela tribo judaica dos essênios no século I, nos 800 pergaminhos, escritos entre 250 a.C. a 100 d.C., aparecem comentários teológicos e descrições da vida religiosa deste povo, revelando aspectos até então considerados exclusivos do Cristianismo.
Estes documentos tiveram grande impacto na visão da Bíblia, pois fornecem espantosa confirmação da fidelidade dos textos massoréticos aos originais. O estudo da cerâmica dos jarros e a datação por carbono 14 estabelecem que os documentos foram produzidos entre 168 a.C. e 233 d.C.
Destaca-se, entre estes documentos, uma cópia quase completa do livro de Isaías, feita cerca de 100 a.C. Especialistas compararam o texto dessa cópia com o texto-padrão do Antigo Testamento hebraico (o manuscrito chamado Codex Leningradense, de 1008 d.C.) e descobriram que as diferenças entre ambos eram mínimas.
Outros manuscritos também foram encontrados neste mesmo local, como fragmentos de um texto do profeta Samuel, textos de profetas menores, parte do livro de Levítico e um targum (paráfrase) de Jó.
As descobertas arqueológicas, como a dos manuscritos do Mar Morto e outras mais recentes, continuam a fornecer novos dados aos tradutores da Bíblia. Elas têm ajudado a resolver várias questões a respeito de palavras e termos hebraicos e gregos, cujo sentido não era absolutamente claro. Antes disso, os tradutores se baseavam em manuscritos mais “novos”, ou seja, em cópias produzidas em datas mais distantes da origem dos textos bíblicos.
Vamos estudar esse livro maravilhoso?

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